segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 5

Parágrafos sobre filmes vistos entre 26 e 28 de janeiro, inclusive dois vistos nos cinemas de Beijing que só colocam legenda em chinês e o espectador não-chinês que se vire pra entender inglês, francês, russo ou até Na'vi! (Só um desabafo.)



O TERCEIRO HOMEM (The Third Man, Reino Unido, 1949, dir. Carol Reed)
Noirzão clássico com todos os elementos do gênero: uma morte que é mais do que parece, um protagonista preocupado em investigar o que ninguém dá muita bola, uma mulher misteriosa, um vilão ambíguo, fotografia em preto-e-branco e cheia de sombras, composições que abusam dos ângulos tortos. Joseph Cotten está adequadamente confuso como o escritor de faroestes que chega a Viena a convite de um amigo e encontra o amigo morto, e Orson Welles, mesmo com pouco tempo de tela, compõe um personagem intrigante, variando sutilmente as expressões faciais e contribuindo com frases clássicas do cinema (eu nem sabia que vinha deste filme a citação que compara a Itália sanguinária que produziu o Renascimento e a Suíça pacífica que produziu o relógio cuco). Nota 5/5



SUPERMAN IV - EM BUSCA DA PAZ (Superman IV: The Quest for Peace, EUA/Reino Unido, 1987, dir. Sidney J. Furie)
Lembro vividamente de assistir Superman IV na tevê em Cabo Frio no reveillón de 1991 pra 1992. Eu tinha seis anos e adorei, claro. Vinte anos depois, só encarei de novo por ter assistido recentemente ao restante da série, já esperando aquela bomba – imagine um filme que tem 10% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 3.5/10 no IMDB. E é realmente bem ruim, mas não é um desastre monumental, no sentido de que Batman & Robin é um desastre monumental. É que o espectador ideal é o menino de seis anos que brinca de bonequinhos e não dá a mínima para as leis da física, que aqui são devidamente chutadas, mastigadas e cuspidas: tem a Mariel Hemingway respirando no espaço, tem o Superman movendo a Lua para provocar um eclipse e contando que aprendeu isso "na aula de física do ensino médio". Mas ei – a ciência não é o forte da série desde o primeiro filme, com a famigerada cena da Terra girada ao contrário. Em comparação com Superman III (que trazia Richard Pryor como gênio da computação!), o quarto episódio maneira no pastelão e no humor verbal, que quando aparecem não têm muito êxito – a tirada do Superman sobre a segurança no metrô não funciona nem como piada nem como referência ao filme original. Os efeitos especiais são tosquíssimos, com cromakeys dignos de Chapolin, e o roteiro continua com a tradição iniciada pelo "superbeijo do esquecimento" de inventar superpoderes para o herói que não existiam nos quadrinhos: aqui ele tem poderes eletromagnéticos, reconstrói a Muralha da China com uma supervisão-de-pedreiro e toca a campainha com a força do pensamento (além de aparecer falando russo e italiano, numa demonstração clara de supererudição). Gene Hackman volta como Lex Luthor, que desta vez inventa um novo supervilão chamado Homem-Nuclear, com mullets loiros de McGuyver, unhas prateadas gigantes e uniforme à la He-Man. Com tanto vilão bacana nos quadrinhos que nunca apareceu nas telonas (Darkseid, Brainiac, mesmo o Superman Bizarro), por que é que ficam inventando moda? Nota 2/5



SHERLOCK HOLMES - O JOGO DE SOMBRAS (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, EUA, 2011, dir. Guy Ritchie)
O primeiro Sherlock Holmes de Guy Ritchie me surpreendeu porque, apesar de fugir completamente da caracterização habitual do personagem, o estilo narrativo de Ritchie e a química entre Robert Downey Jr. e Jude Law deram um novo gás ao velho detetive. A rigor, esta seqüência não acrescenta nada de novo, mas continua bem bolada e divertida. As brincadeiras visuais de Guy Ritchie no primeiro filme estão de volta, e algumas funcionam por subverter o conceito original (Holmes prevendo os golpes antes de uma luta), mas outras acabam cansativas (como a câmera leeeenta na cena da floresta). Downey Jr. se diverte com os inúmeros disfarces, enquanto os personagens clássicos Mycroft Holmes (Stephen Fry) e Professor Moriarty (Jared Harris) são adições muito bem-vindas, este último protagonizando o ótimo embate final com Sherlock, mais fiel ao conto O Problema Final do que eu imaginaria. Nota 4/5



DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder, EUA, 1954, dir. Alfred Hitchcock)
Um marido planeja assassinar a esposa adúltera, mas o plano dá errado e ele tem que improvisar. A trama se passa quase inteiramente dentro de um apartamento; ao contrário de Festim Diabólico, é filmado de maneira mais convencional, mas ainda extremamente precisa, passeando pelos vários detalhes do roteiro – as diversas chaves sendo o maior destaque – sem confundir o espectador. Nota 4/5



MISSÃO: IMPOSSÍVEL - PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible – Ghost Protocol, EUA/EAU, 2011, dir. Brad Bird)
Brad Bird construiu uma carreira impecável na animação, com O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille – este último meu favorito dentre as várias obras-primas da Pixar. Sua estréia no live-action com o quarto episódio de Missão: Impossível não chega ao brilhantismo de suas animações, mas é um filme-pipoca de primeira, preferindo usar seu tempo com a ação desenfreada (e bem dirigida) do que em tentar ser "sublime". Ethan Hunt é um action hero com profundidade zero, e é melhor que seja assim – nas poucas vezes em que começa a esboçar os problemas mais emocionais de Hunt, o filme fica menos interessante. O que interessa aqui é a ação, e nisso Bird é impecável, usando humor na invasão ao Kremlin, provocando vertigem na cena do prédio mais alto do mundo, apresentando trocentos gadgets absurdos que são imediatamente invejados pela platéia. Tom Cruise já é quase cinqüentão mas ainda convence nos saltos e corridas; Simon Pegg não decepciona no seu papel habitual de nerd piadista – ele e Jeremy Renner são agentes secretos mais humanos, mostrando medo onde qualquer um de nós também o faria. Paula Patton, por outro lado, é uma "impossiblegirl" meio genérica, e Michael Nyqvist empalidece diante do vilão de Phillip Seymour Hoffman no Missão Impossível anterior. Protocolo Fantasma acaba sendo o pior filme de Brad Bird até agora – mas só porque ele estabeleceu um padrão alto demais. Nota 4/5

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 4

Os filmes que vi entre 16 e 25 de janeiro (uma viagem no feriado arruinou minha média de 1 por dia, mas quem sou eu pra reclamar) incluem uma animação da DC Comics, o primeiro Planeta dos Macacos (decidi rever este original e assistir ao restante da série), um clássico do De Palma, um dos poucos Nolans que não tinha visto (acho que agora só falta o primeiro, Following) e um dos 9 candidatos a Melhor Filme no Oscar 2012 - como no ano passado, pretendo ver todos antes da cerimônia, e até agora só tinha assistido Meia-Noite em Paris.



BATMAN - ANO UM (Batman: Year One, EUA, 2011, dir. Sam Liu e Lauren Montgomery)
A DC vem lançando longas animados em vídeo com seus principais personagens nos últimos anos, e este, primeiro que vejo, adapta quadro a quadro a clássica Batman – Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Estão lá todas as cenas, todas as falas, todos os detalhes, sem tirar nem pôr – e isso tem um lado bom e outro ruim. Bom porque a história é ótima e não há espaço para simplificações ou invencionices, e tudo o que não podia existir na mídia impressa (vozes, trilha, efeitos sonoros) é feito direitinho. Ruim porque o projeto não extrapola em nada a obra original, quando tanto a duração do filme (apenas 60 minutos) quanto da trama (que cobre um ano inteiro) seriam motivos bem justificados para aprofundar personagens e conceitos. Do jeito que ficou, e pela própria natureza pouco ambiciosa do projeto, feito para ser lançado direto em DVD, a impressão é de que Batman - Ano Um é uma animação competente, mas a maior parte dos seus méritos vem mesmo dos quadrinhos. Nota 3/5



O PLANETA DOS MACACOS (Planet of the Apes, EUA, 1968, dir. Franklin J. Schaffner)
Incomodam alguns exageros, como o excesso de zooms e o notório overacting de Charlton Heston. Mesmo assim, O Planeta dos Macacos original é ficção científica de primeira, com uma história contada com calma, trilha atonal nervosa, maquiagem que ainda convence após 44 anos e um final-surpresa hoje ultraconhecido (a capinha do DVD já solta o spoiler descaradamente), mas que é legal pra caramba. Também me agrada como todas as semelhanças entre macacos e humanos – eles falam inglês, andam a cavalo, usam armas de fogo – fazem sentido dentro da lógica do filme, ao contrário de tantos outros exemplares do gênero. Nota 5/5



SCARFACE (EUA, 1983, dir. Brian De Palma)
Filmão de gângster com Brian De Palma no auge (7 anos após Carrie, 4 antes de Os Intocáveis) e Al Pacino interpretando novamente um mafioso, depois de dois O Poderoso Chefão. Mas Tony Montana é um personagem bem diferente de Michael Corleone, ficando mais entre um Sonny (pelo temperamento explosivo) e um Vito (por ter construído do nada sua carreira no crime). Enquanto Michael falava baixo e usava os olhos para impor respeito, Tony é impulsivo, muda de humor em questão de segundos, grita com os cantos da boca virados pra baixo. O filme é longo mas jamais cansativo, repleto de falas clássicas ("Say hello to my little friend" é só a última delas) e cenas violentas, mas visualmente impecáveis – com destaque, claro, para os últimos instantes de Tony Montana. Nota 5/5



O GRANDE TRUQUE (The Prestige, EUA/Reino Unido, 2006, dir. Christopher Nolan)
Como em Amnésia e A Origem, a estrela é o roteiro engenhoso dos irmãos Nolan, que mescla com competência flashbacks, plot points e revelações que alteram, em retrospecto, nossa percepção da história. Christian Bale e Hugh Jackman estão ótimos como dois mágicos rivais que vivem num incessante jogo vingativo que lembra o Spy vs. Spy da revista Mad. Das duas grandes revelações da cena final, uma funciona muito bem e nos dá vontade de rever o filme todo, enquanto a outra decepciona por ser extremamente implausível e bandear para um estilo sci-fi (ou, neste caso, "steampunk") que infelizmente destoa de todo o resto. Nota 4/5



A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life, EUA, 2011, dir. Terrence Malick)
É o 2001 de Malick. As semelhanças não estão no conteúdo – que focam na relação conflituosa entre pai e filho numa família americana dos anos 50 – mas na forma, no ritmo e até nas reações dos espectadores. Aqui também temos grandes saltos temporais, questões filosóficas e existenciais, um uso poético de efeitos especiais (meu preferido é quando Jessica Chastain dança no ar), uma visão da Terra pré-histórica e do espaço (até Júpiter reaparece aqui; não por acaso, os efeitos à moda antiga foram feitos pelo mesmo Douglas Trumbull de 2001), um roteiro que não se preocupa em se explicar, música clássica a rodo, belíssima fotografia, ritmo lento, muito simbolismo e um final onírico, meio malucão. Não me admira que o cara que entra no cinema esperando um típico blockbuster do Brad Pitt ache um saco, e que as opiniões do público se polarizem entre o ambicioso e o pretensioso. Eu gostei, minha seqüência favorita sendo a que vai do início da vida na Terra ao desenvolvimento da família de Pitt e Chastain – mas, assim como 2001, assistindo só uma vez não dá pra dizer que pude digerir tudo. Nota 4/5

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 3

Filmes vistos entre 9 e 15 de janeiro:



PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011, dir. Rupert Wyatt)
Depois de ver o filme nos cinemas e rever em casa, não mudo minha percepção: apesar dos defeitos na caracterização unilateral da maioria dos personagens humanos (Tom Felton é mau por ser mau, Freida Pinto é boazinha e sem sal, John Lithgow some quando o roteiro não precisa mais dele), as estrelas são os macacos e são eles que fazem esse reboot de Planeta dos Macacos funcionar. No ano fraco em blockbusters que foi 2011, este sem dúvida foi um dos melhores. E pra quem está esperando pela seqüência, é só ver Contágio, também de 2011: não tem macaco, mas o resto encaixa como uma luva. Nota 4/5



A COSTELA DE ADÃO (Adam's Rib, EUA, 1949, dir. George Cukor)
Divertida comédia de "guerra dos sexos", quando a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres ainda podia render um filme inteiro em Hollywood e soar atual. Spencer Tracy e Katharine Hepburn são casados e ambos advogados, atuando em lados opostos de um mesmo caso: ela representando uma mulher traída que tentou matar o marido, ele na promotoria, defendendo o cara. Longos planos sem cortes evidenciam o ótimo timing cômico dos dois, e as cenas no tribunal têm inventividades que não eram batidas nos anos 40, como a transformação das testemunhas em indivíduos do sexo oposto. Nota 4/5



O PANACA (The Jerk, EUA, 1979, dir. Carl Reiner)
Um dos primeiros filmes de destaque de Steve Martin, O Panaca está no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e na lista dos 500 melhores da revista Empire, que o descreve como "sério candidato a filme mais engraçado de todos os tempos". Que decepção. Não só Martin exagera além da conta como o idiota que acaba ficando rico, como os outros personagens parecem igualmente boçais, o que torna a suspensão da descrença quase impossível. A estrutura é episódica demais e as motivações por trás dos personagens são tão avulsas e inverossímeis que não dá pra achar graça. Muita coisa me lembrou Débi & Lóide, de 15 anos depois, que é infinitamente melhor (e não é minha memória afetiva falando: revi o filme há pouco mais de um ano e continua ótimo). Mas no filme com Jim Carrey, os protagonistas eram idiotas mas os coadjuvantes não; se havia um assassino em seu encalço, ele tinha um motivo mais plausível do que simplesmente escolher um nome a esmo na lista telefônica; se a mocinha se mostrava apaixonada por um cabeça-de-vento, era porque precisava fingir, não porque ela também era imbecil. Salvo em duas ou três gags rápidas, O Panaca falha em todas as suas tentativas de provocar risadas. Como é que pode ser tão cultuado? Nota 1/5



GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a Hot Tin Roof, EUA, 1958, dir. Richard Brooks)
Adaptado de uma peça de Tennessee Williams (que declarou ter odiado o resultado nas telas), tem os então jovens Paul Newman e Elizabeth Taylor lavando roupa suja durante a maior parte do filme. O elenco é certeiro (incluindo os personagens odiáveis, como a cunhada de Newman) assim como as cenas, calcadas nos diálogos e fluindo quase em tempo real. Destaque ainda para o "Big Daddy" interpretado por Burl Ives, um sujeito cansado da hipocrisia da família e que não hesita em dar patada na esposa chata, no filho sanguessuga, na cunhada megera ou nos netinhos capetas. Nota 4/5



A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO (Flickan Som Lekte Med Elden, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009, dir. Daniel Alfredson)
Li umas 100 páginas de Os Homens que Não Amavam as Mulheres antes de abandoná-lo de vez, aborrecido com o estilo excessivamente expositivo de Stieg Larsson. O filme sofre desse mesmo problema, mas funciona melhor, apresentando-nos à personagem intrigante que é Lisbeth Salander. Mas esta segunda parte da trilogia Millenium decepciona: mais diálogos expositivos, mais clichês ultrabatidos (alguém troca de canal e começam a mostrar uma notícia importante) e pouco desenvolvimento dos protagonistas Lisbeth e Blomkvist. Falta tensão – seja pegando fogo, levando tiro ou enterrado vivo, você sabe que aquele personagem vai sobreviver. As "revelações" soam bem forçadas e a trama apela até para um vilão jamesbondiano com cara de russo e que não sente dor. Vamos ver como Hollywood vai se sair nessa. Nota 2/5

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 2

Filmes assistidos entre 6 e 9 de janeiro:



AS LUZES DE UM VERÃO (Mùa hè chiều thẳng đứng/À La Verticale de L'été, Vietnã/França/Alemanha, 2000, dir. Trần Anh Hùng)
Comprei este e outros filmes vietnamitas quando fui a Hanói há quase um ano, e só agora parei de enrolar para assisti-los. As Luzes de Um Verão se concentra em uma família de três irmãs e um irmão. Uma descobre que está grávida mas desconfia que o marido é infiel. Outra é infiel e descobre que o marido tem outra família. A mais nova mora com o irmão e aparentemente está apaixonada por ele. Muita coisa fica sem desfecho, mas isso não é necessariamente um defeito e combina com a proposta do filme. Alguns diriam que é bem paradão, mas eu curti e por isso usarei "contemplativo". Nota 4/5



PASSE LIVRE (Hall Pass, EUA, 2011, dir. Bobby & Peter Farrelly)
Passe Livre não é um filme ruim, mas simplesmente não é engraçado como se esperaria dos irmãos Farrelly. Os primeiros 30 minutos são gastos para estabelecer uma premissa que o próprio pôster já escancara – Owen Wilson e Jason Sudeikis recebem das esposas uma semana de "passe livre" para fazer o que quiserem, "no questions asked". Mas salvo uma ou outra cena mais inspirada, a tal semana decepciona pela falta de ousadia e o excesso de correção política. Onde foram parar os Farrelly criativos e despudorados que fizeram Débi & Lóide, uma das melhores comédias dos anos 90? Nota 2/5



O EXTERMINADOR DO FUTURO: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA/Alemanha/Reino Unido/Itália, 2009, dir. McG)
Se vai ser impossível para a série atingir o nível de O Exterminador do Futuro 2, o quarto episódio ao menos não faz feio na ação. Depois de três filmes adiando o inevitável, chegamos finalmente a um futuro pós-apocalíptico dominado pelas máquinas, e aqui não há Matrix mantendo os humanos felizões e alienados. O John Connor da vez é Christian Bale – interpretado por um ator diferente a cada filme, é difícil que o personagem mantenha uma caracterização consistente, mas o que é apresentado aqui não compromete. As homenagens aos filmes originais divertem, embora não acrescentam muito, e a trama envolvendo um Connor adulto e um Kyle Reese jovem transforma o roteiro numa curiosa mistura de prequel e continuação. Pelo menos escapamos de ver um robô sendo enviado ao passado pela quarta vez pra fracassar em suas tentativas de exterminar a família Connor. Nota 3/5



MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (Bridesmaids, EUA, 2011, dir. Paul Feig)
O último filme sobre madrinhas de casamento que assisti foi a porcaria Vestida Para Casar, e nunca em sã consciência assistiria a um chamado Missão Madrinha de Casamento não fosse tanto falatório da crítica. E não é que o filme é bom mesmo? A primeira produção de Judd Apatow a fugir dos "bromances" e focar em protagonistas femininas faz a conversão de forma inspirada, mostrando que a versão de saias da camaradagem entre amigos não é o companheirismo entre amigas, mas a inveja e o ciúme. As melhores cenas são aquelas de constrangimento, como o duelo de microfones, a seqüência no avião e o chilique na festa com tema parisiense. Nota 4/5



NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, Reino Unido/EUA, 2008, dir. Martin McDonagh)
Pô, que surpresa agradável. Um filme despretensioso, mistura de thriller e comédia, valorizando muito mais os personagens do que a ação, cheio de diálogos genuinamente engraçados e sem medo de serem politicamente incorretos. A dupla de assassinos (Brendan Gleeson e Colin Farrell, finalmente aparecendo com seu sotaque irlandês natal) tem alma, o roteiro (original) encaixa as pontas soltas sem soar forçado e Ralph Fiennes, mesmo aparecendo pouco, convence perfeitamente como um chefão do crime que não abandona seus princípios. E olha que foi o filme de estréia do diretor. Excelente começo. Nota 5/5

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 1

Depois de bater meu recorde pessoal e assistir a 265 filmes em 2011, decidi que vou escrever pelo menos um parágrafo raso sobre cada filme visto em 2012. Na falta de lugar melhor pra publicar (no Cinema de Buteco só posto textos completos), tiro a poeira do Biselho. A cada cinco filmes, colocarei aqui um pacotão de comentários.

Os primeiros cinco filmes que eu vi em 2012:



LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (Knocked Up, EUA, 2007, dir. Judd Apatow)
Uma espécie de primo do Superbad, compartilhando o mesmo produtor (que aqui também dirige), vários dos mesmos atores e os mesmos diálogos espertos. A diferença é que enquanto Superbad tratava de questões adolescentes (comprar bebidas, perder a virgindade), Ligeiramente Grávidos tem um tema mais "gente grande", a gravidez. Seth Rogen e Katherine Heigl formam um casal improvável, que ganha credibilidade pela boa química entre eles. Apesar da duração um pouco excessiva (mais de 2h) e da presença constante da personagem da irmã da protagonista (Leslie Mann), que é uma chata de galochas sem ser engraçada, é uma comédia bem simpática e uma boa pedida pra começar meu 2012. Nota 4/5



SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, Lies, and Videotape, EUA, 1989, dir. Steven Soderbergh)
Primeiro filme do versátil Steven Soderbergh, que escreveu o roteiro em 8 dias e tinha 26 anos na época (e eu aqui a 1 dia de completar 27...). O elenco é enxuto e bem escolhido: Peter Gallagher como o marido canalha, Andie MacDowell como a esposa recatada, Laura San Giacomo como a cunhada safada e James Spader como o sujeito meio andrógino que filma entrevistas com mulheres falando sobre sexo. A direção e o texto privilegiam as atuações e, exceto por um ou outro momento mais lento, sempre funcionam. A única sensação estranha é a de não conseguir me envolver muito com nenhum personagem, como se fosse Spader assistindo atento a uma de suas fitas, voyeuristicamente, mas sem participar. Nota 4/5



PAGE ONE: INSIDE THE NEW YORK TIMES (EUA, 2011, dir. Andrew Rossi)
A equipe do documentário passou um ano na redação do New York Times, registrando bastidores e entrevistando figuras proeminentes do jornal. A linha geral é o conflito entre a velha mídia e a era da internet, coisa que já dura pelo menos uma década e não oferece uma perspectiva lá muito boa para a mídia impressa. Há várias cenas interessantes do dia-a-dia do jornal, como a que mostra a decisão de se publicar ou não uma história não confirmada sobre o fim da guerra do Iraque, além de reuniões de pauta e entrevistas com repórteres no meio de um artigo ou de um telefonema com possíveis fontes. Mas a estrutura do documentário é confusa, saltando de um tema a outro sem muita ligação – de WikiLeaks e Twitter a assuntos que não são familiares para não-americanos. E as opiniões/previsões sobre o futuro do jornalismo tradicional, que permeiam o filme todo, soam às vezes como conversa de boteco – mesmo quando sagazes e divertidas, ou talvez justamente por isso – porque ninguém tem certeza completa do que está falando, e não têm mesmo como ter. O filme tenta terminar com um tom otimista, mas logo em seguida põe um letreiro dizendo que "leitores e editores ainda estão debatendo sobre como o jornalismo pode se sustentar". A impressão é de que, sem poder oferecer respostas às questões que propõe, Page One será um documentário datado em pouquíssimo tempo. Nota 3/5



PLATOON (EUA/Reino Unido, 1986, dir. Oliver Stone)
No mesmo ano em que viveu um de seus primeiros papéis no cinema como o drogadito que pega a irmã de Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado, Charlie Sheen estrelou este filme baseado nas experiências do diretor Oliver Stone na Guerra do Vietnã. Outros rostos famosos também integram o elenco em suas versões 25 anos mais novas – Willem Dafoe, Forest Whitaker, Johnny Depp. Sheen é um jovem que se voluntaria para a guerra e percebe já nos primeiros dias a cagada que fez. O clima de camaradagem do início do filme, quando os soldados jogam, cantam e fumam maconha juntos, logo dá lugar a abusos e conflitos internos. O embate entre Willem Dafoe e um cicatrizado Tom Berenger polariza os membros do pelotão e têm conseqüências imprevisíveis. Gosto principalmente da falta de um heroísmo explícito, tão batido nesse tipo de produção, e da sensação de desnorteio passada pela maioria dos jovens soldados – ninguém ali é herói de filme de ação e tampouco finge ser. Nota 4/5



RED – APOSENTADOS E PERIGOSOS (RED, EUA, 2010, dir. Robert Schwentke)
Apesar das similaridades com a série Bourne – perseguição a ex-agentes da CIA, uma mulher inocente que acaba envolvida –, RED pende muito mais pro lado da comédia do que para um thriller realista. O grupo de "velhinhos" tem um elenco de peso encabeçado por Bruce Willis e que também inclui Morgan Freeman, um John Malkovich mais malucão do que precisava e uma Helen Mirren que não convence muito como assassina profissional. Se as cenas mais "sérias" parecem recicladas de dezenas de outros filmes do gênero, as cômicas e absurdas – como Willis descendo de um carro em movimento (não é pulando: é descendo!) – fazem jus ao status de "adaptação de HQ" e são as que mais entretêm. Nota 3/5

domingo, 7 de novembro de 2010

Pequena Morsa

Brincando com o Inkscape (uma genérico free do Corel Draw e do Illustrator), fiz uma versão da letra de "Pequena Morsa" (da minha banda, ABUNN) misturando fontes e pequenos desenhos. Ouça a música e veja a letra:




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Biselho não morreu



Ué. Mas então, por que este blog não ganhou uma atualização sequer nos últimos 11 meses?

Alternativas:

a) Por preguiça.
b) Por falta de assunto.
c) Porque Lucas Paio está na China e só consegue acessar o Blogger muito de vez em quando, graças à censura internética do governo chinês.

Se você assinalou a) ou b), está completamente eeeeeeeeeerrado. Tanto é que, desde setembro - de quando data o último post deste blog até agora - venho postando com freqüência no Boca de Gafanhoto, blog-irmão do Biselho que trata exclusivamente de minhas experiências aqui na terra dos espetinhos de escorpião.

Se você não acompanha o Boca de Gafanhoto, comece agora: o endereço oficial é www.bocadegafanhoto.com, mas você também pode acessar por aqui e conferir, por exemplo, como é uma universidade na China, o dia-a-dia de um estudante de mandarim, os asquerosos (ou nem tanto) banheiros chineses, a Muralha da China, as comidas que você nem sabia que existiam, os gramados e os desertos da Mongólia Interior, os guerreiros de terracota de Xi'an, além de quilos de fotos, vídeos e podcasts.

Além disso, venho contribuindo ativamente com dois outros blogs. A Saga de Tião, história parcialmente nonsense que escrevo com Daniel de Pinho desde 2007, está em sua terceira e última temporada; e o já finalizado Uma Copa, Dois Mundos, escrito durante a Copa 2010 em parceria com Thales Machado.

Agora, a grande novidade que você não sabia: o Biselho, a Saga de Tião e o Uma Copa, Dois Mundos virarão livros dentro das próximas semanas. Livros de verdade, impressos em átomos, com capa, contracapa, orelhas e quiçá até prefácio.

A Saga de Tião reunirá as duas primeiras temporadas, devidamente revisadas - a terceira você pode acompanhar pelo blog e deixar aquele comentário jóia.

Uma Copa, Dois Mundos trará textos e fotos sobre a última Copa do Mundo na visão de quem assistiu da China e da África do Sul. A maioria você pode ler no blog, mas textos inéditos também farão parte do pacote.

E o Biselho ganhará uma antologia de seus melhores textos entre 2004 e 2009. 90% do conteúdo do blog ficou de fora por um motivo ou vários, mas os 10% restantes estão sendo atualizados, emendados, melhorados, picotados, recauchutados e diligentemente revisados.

Todos os três estarão à venda pela internet. Sim, você poderá gastar seu suado dinheirinho e adquirir seus exemplares para ler no ônibus, antes de dormir, no meio da aula, durante uma reunião ou até dar de presente no amigo oculto da firma. Aguarde e verá!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Boca de Gafanhoto


Fui pra China.

Não é piada e nem eufemismo pra falar que o blog acabou. O Biselho continua firme e forte, mas com atualizações menos freqüentes. Minhas atenções nos próximos meses estarão mais voltadas para o Boca de Gafanhoto, blog que criei para depositar minhas impressões sobre o país mais populoso do mundo, onde morarei a partir desta semana.
Com um inédito domínio ponto com (até o Biselho que já tem cinco anos ainda é ponto blogspot)e uma logo criada pelo renomado sabinopolense Daniel de Pinho, o Boca de Gafanhoto já conta com 5 posts no ar, e isso que eu ainda nem saí de Belo Horizonte. Comentem, divulguem, xinguem, mas acessem: http://www.bocadegafanhoto.com/

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quem é Rei Momo...



Depois de quatro anos sem lançar música inédita, o ABUNN retorna com duas novas canções.

"Festa Junina em Banheiro" é uma ode à celebração da festa de São João nos lugares mais improváveis da casa. A música é minha e a letra é criação da banda toda numa noite de ócio. Não estranhe: ela só tem 34 segundos mesmo.

"Pequena Morsa" narra a história de uma garota rechonchuda que resolveu dar tudo de si para adquirir uma boa forma. A letra é parceria minha com o Daniel de Pinho, que também escreve A Saga de Tião. Fizemos a letra pelo MSN quando ele morava nos Estados Unidos: os versos ímpares são meus e os pares dele, exceto na última estrofe, quando invertemos.

Formação da banda nesta gravação: Lucas Paio (voz, guitarra e teclado), Bruno Paio (baixo), Gustavo Gomes (guitarra solo) e Adriano Domeniconi (bateria).

Onde ouvir? No nosso MySpace. Lá também você escuta "Que Pena", "Opesdol", "A Song With No Name" e "Capitão Garrancho", todas da safra 2004/2005.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O que é, o que é:



Nano-documentário filmado de dentro do Cine Vila Rica, em Ouro Preto, durante a última Mostra de Cinema.

Arrivederci



Roma, Itália
18 a 20 de fevereiro de 2007

Quando regressei a Roma depois de alguns dias perambulando por Venezia e Firenze, cumpri a promessa de não pisar novamente no Alessandro Palace e me instalei no Stargate Hostel, na mesma região feia mas bem localizada, perto da Termini. O albergue seguia o esquema que eu já experimentara no Peace & Love de Paris: chuveiro dentro do próprio quarto, sem porta nem nada - mas com cortinas impedindo a exibição das nudezes alheias - e privada no corredor, essas com portas. Outro aspecto marcante do Stargate era seu elevador à moda antiga, com grades de metal ligeiramente enferrujadas. Não quis nem conferir o estado das correntes.

Logo que cheguei, o Efeito Itália fez-se presente mais uma vez: vira e mexe conhecia alguém numa cidade e encontrava por acaso em outra. Foi assim com as duas brasileiras que conheci em Roma e vi de novo em Veneza, o casal australiano de Newcastle que reencontrei casualmente em Florença e esse baiano, com quem bebi no pub crawl de Berlim e topei outra vez nas ruas romanas.

A última noite da viagem - uma segunda-feira de Carnaval! - foi com um apanhado de várias regiões brasileiras: o baiano, os três cariocas que estavam com ele e com quem rodei em Pompéia, e as três gaúchas que conhecemos nas ruínas. Elas sugeriram um bar logo ao lado de onde estavam hospedadas. Ironicamente, se era tão fácil esbarrar a esmo com alguém, foi complicado reunir toda a patota pra sair à noite, sem celular.

Chegamos no tal pub e um rapaz veio saber o que queríamos ali. Ué, tomar uma cerveja? Ele foi lá dentro, consultou um superior e deixou que entrássemos. Senhores com muita cara de mafiosos penduravam seus ternos e nos olhavam de rabo de olho. Olhávamos o cardápio quando a garçonete veio e avisou que, na verdade, todas as bebidas custavam 10 euros. E a gente achando aquilo muito estranho, mas uma das gaúchas estava com muita vontade de beber e acabou pedindo a cerveja mais cara de sua vida - 27 reais por uma long neck. Assim que ela terminou, pegamos os casacos e demos no pé, antes que nos dessem um tiro ou furassem nosso olho, o que viesse primeiro.

Melhor pedida foi o Julius Caesar Pub, que tinha cerveja Guinness mais em conta e tocava de tudo, até uma ou outra música brasileira - uma razoável para cada outra lamentável, mas brasileira ainda assim. Depois saímos todos bêbados, em busca do Yellow Hostel, o albergue onde os cariocas estavam e que tinha um bar para continuarmos a noitada. Após seis quarteirões sem reconhecer um nome de rua sequer, nos demos conta de que andáramos aquilo tudo na direção errada. Tudo bem: eu já tinha feito coisa parecida antes, e sóbrio.

Voltei para o albergue às 4 da manhã, depois de algumas horas de vinho e cavaquinho, confiando no acaso para acordar antes do horário do check-out, que era às 10h. Abri os olhos, assustado, às 11h40. Ninguém no quarto: nem os iranianos, nem o casal do Peru, nem as mochilas e malas de ninguém - exceto as minhas, ainda bem. Desci correndo, pedindo pelamordedeus que não me cobrassem outra diária, e os caras: "Va bene, va bene!", naquele bom humor que você já conhece. Saí pelas ruas apressado em direção à estação, carregando as mochilas, despenteado e com uma já prevista dor de cabeça. Nada mais adequado para encerrar uma viagem do que uma boa ressaca.

Este post conclui a série tardia sobre meu mochilão na Europa em 2007. Para ler todos, clique aqui. A seguir, voltamos com nossa programação normal. Ou quase.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ashes are burning



Pompéia, Itália
19 de fevereiro de 2007

Depois de Tróia e Esparta, a próxima cidade antiga a virar blockbuster seria Pompéia, num thriller dramático de 130 milhões de dólares dirigido por Roman Polanski. Só que o Polanski saiu do projeto e infelizmente não se sabe se o filme vai ou não vingar. Por outro lado, o mundo fica livre de mais um papel insosso de Orlando Bloom.

A história de Pompéia é cinematográfica por natureza. Cidadezinha romana típica, de agitada vida cultural e popular destino de verão. Em 62 d.C., é antigida por um terremoto de 7.5 na escala Richter, que destrói grande parte de suas edificações e instaura o pandemônio no lugar. Nos dezessete anos seguintes é reconstruída pouco a pouco, até que em 79 d.C. o vulcão Vesúvio resolve acordar e espalha pedras e cinzas pra todo lado, soterrando todo mundo. Sua localização é esquecida por mil e quinhentos anos, até que acidentalmente descobrem suas ruínas e iniciam as escavações. Até hoje não terminaram: dos 66 hectares, 21 ainda permanecem intocados. Como se não bastasse, em 1943 os Aliados jogaram 150 bombas em Pompéia, achando que os alemães estavam usando o lugar para estocar munição. Ô lugar zoado.

Eu ouvia essas histórias desde criança e, para meu último dia de mochilão, escolhi fazer um bate-e-volta a partir de Roma para conhecer o famoso sítio arqueológico à beira do Vesúvio. É só pegar um trem pra Nápolis (227km) e outro rapidim (30km) pra cidade de Pompéia. E foi aí que fiz a primeira descoberta, quando cheguei na estação com três cariocas que havia conhecido no dia anterior: existem as ruínas de Pompéia antiga, mas há também uma cidade moderna, logo ao lado, com o mesmo nome. Em italiano, elas se distinguem pela quantidade de Is: "Pompei" é a atual e "Pompeii", a antiga.

Um monte de taxistas se ofereceram pra levar a gente até as ruínas, mas preferimos a pão-duragem e rumamos para o ponto de ônibus. Esperamos, esperamos, até que o ônibus finalmente apareceu... e não parou. Vencidos, caminhamos a distância da estação até a entrada de Pompeii, que nem era tanta assim.

O ingresso custou 10 euros e deu direito a um mapa e um livrinho caprichado (80 páginas) com detalhes sobre as várias construções encontradas lá dentro. Um italiano barrigudo ofereceu seus serviços de guia turísticos, dizendo em inglês macarrônico: "Ráier a gáide ru uíl títchiu Rôman rístori". Preferimos recusar. Também me neguei a comprar um guarda-chuva, embora o sol estivesse longe e a previsão do tempo não fosse nada esperançosa. Resultado: o único dia em que levei o meu Guia do Viajante para um passeio externo também foi o único dia em que choveu. O coitado ficou encharcado.

Ainda na entrada, conhecemos duas garotas cariocas que eram intercambistas em Nápoles, e mais adiante se juntaram a nós três gaúchas que também percorriam o continente europeu. Foi também a primeira vez que andei durante o dia junto com outros brasileiros, e é impressionante como a viagem muda nessas circunstâncias: ganha-se em conversas e piadinhas, mas você deixa de ser mestre do próprio destino, e passa a ir aonde a massa vai.



Entramos em Pompéia com um desejo em comum: queremos ver os corpos! E não demoramos a encontrá-los no chamado "Jardim dos Fugitivos", um amplo espaço cheio de pompeenses mortos. Aí foi a vez da segunda descoberta: não são pessoas cobertas de lava petrificada ou algo que o valha, mas moldes de gesso feitos durante as escavações das ruínas. A técnica foi introduzida pelo diretor das escavações na segunda metade do século XIX, Giuseppe Fiorelli, e funciona assim: os corpos soterrados por cinzas foram se decompondo lentamente e deixaram um vão ali no meio, na posição em que estavam; injeta-se gesso ali dentro, que endurece e pronto. É como uma marca de giz no asfalto, em volta do cadáver recém-assassinado, só que 3D.

Caminhar por Pompéia é um barato. São dezenas de construções, entre casas, estabelecimentos comerciais, teatros e o enorme anfiteatro, onde o Pink Floyd filmou seu "Live at Pompeii", provavelmente o show com pior média de público da história. Grande parte dos objetos, bem como muitos dos corpos de gesso, foram tirados de lá e levados para o Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, malditos napolitanos. Ainda assim, muitas estatuetas, pinturas e objetos continuam firme e fortes em seu lar original, bem conservados, e em muitas casas é possível entrar e se pegar imaginando como seria viver ali há dois mil anos.

Na volta para Nápoles, tivemos provas de que o mau humor não é exclusividade dos cidadãos de Roma. Primeiro, um cara implicou com nosso passe de trem e queria cobrar trinta e tantos euros de multa, até que a intercambista carioca, que falava um italiano mais razoável, conversou com ele e resolveu a encrenca. Em seguida, um bigodudo chato não queria aceitar meus euros pra reserva do trem porque a nota estava molhada, mas eu não tinha um secador portátil na mochila e ele acabou cedendo. Depois o Umberto Eco diz que o maior problema da Itália são os italianos, e o pessoal acha ruim.



O Anfiteatro de Pompéia.



Este pub encerrou suas atividades há 1930 anos.



Ruas romanas e mau tempo.



Um cadáver deitado.



Um cadáver agachado.



Um cadáver de bruços.



Um cadáver dormindo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Florentina, Florentina



Florença, Itália
16 a 18 de fevereiro de 2007


Não vou me alongar quanto à minha passagem por Florença. A capital da Toscana, berço do Renascimento, lar de obras-primas da pintura, escultura e arquitetura, é sem dúvida um destino visual e culturalmente imperdível. O caso é que simplesmente não vivi ali experiências dignas de virar história de mesa de bar. O principal culpado, provavelmente, é o hostel que escolhi através do Hostelbookers.com. Não era um albergue de verdade, mas um pseudo-hotel com quartos individuais e banheiro no corredor. Ou seja: não tinha a comodidade de poder tomar um banho na hora que der na telha, nem a vantagem dos quartos coletivos de propiciar conversas enriquecedoras com viajantes intrépidos do Azerbaijão.

Minha chegada a Firenze - o nome oficial da cidade em italiano, ou você achou que era "Florenza"? - deu-se às nove e meia da noite de uma sexta-feira. Fui confiar em meu senso de direção e no mapa estilizado do meu Guia do Viajante Independente, e penei pra encontrar o tal Soggiorno Pitti. Também, o cara consegue se perder na Savassi e acha que chegar numa cidade estrangeira totalmente nova vai fazer brotar um GPS na cabeça. A localização da hospedagem, no entanto, era bem boa. Caminhando, margeei o Rio Arno, cruzei a Ponte Vecchio, comi panino de mortadela na Piazza Duomo. Na Galleria dell'Accademia visitei o desinibido David de Michaelangelo, esculpido quando seu autor tinha 26 anos. O que dá na cabeça desse povo, pra ser gênio tão cedo? Na Galleria degli Uffizi enfrentei uma fila de duas horas para contemplar "O Nascimento da Vênus" de Botticelli e outras trocentas maravilhas renascentistas, isso quando os japoneses não invadiam as salas em bando e atrapalhavam a tranqüilidade. Pelo menos, o ingresso nesse dia era de graça. Na Basilica di Santa Croce, topei com os túmulos de Maquiavel, Michaelangelo e Galileu - e o Père-Lachaise de Paris se gabando de ter o Jim Morrison. Foram boas visitas, boas comidas, boas andanças. Mas sei lá: olhando em retrospecto, eu poderia ter deixado a "obrigação" de visitar Florença e aproveitado para me aventurar em cidadezinhas medievais fora do circuito tradicional, ou para procurar os poucos Paios ainda nativos da Itália. O bom é que eu fico com desculpa pra voltar.



O David de Michaelangelo. Mentira, é uma réplica do mesmo tamanho que fica na Piazza della Signoria. Mas muita gente tira foto como se fosse a original.



Michaelangelo, Leonardo e Donatello. Só faltou o Rafael e o Mestre Splinter.



Multa de 50 euros pra quem colocar cadeado na grade...



...mas aparentemente ninguém tá nem aí.



Peraí caceta.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Serenissima



Veneza, Itália
15 e 16 de fevereiro de 2007

Tudo que eu tinha pra falar de Veneza eu já escrevi neste post de 2007. De como deixei pra última hora a tarefa de encontrar abrigo e acabei num camping na cidade vizinha de Marghera, onde tomava banho no pior chuveiro do mundo. De como o Carnaval veneziano passa longe das ruas sujas de Diamantina, do frevo suado de Olinda e das penas coloridas da Sapucaí, e se resume a transeuntes trajando fantasias caras à moda de 1600 - isso fora dos grandes salões, onde o pau quebra de verdade, mas só pra quem está disposto a desembolsar cento e tantos euros numa folia aristocrática.

Isso é mais ou menos tudo. Em Veneza não colecionei casos hilariantes, não conheci figuras pitorescas nem me embrenhei museus adentro sedento por cultura. A única atração paga que visitei foi o Campanário da Praça de São Marcos (6€), de cujo topo tem-se uma vista invejável da porção continental da cidade e de suas ilhotas espalhadas pelo Mar Adriático. Também não me dei o trabalho de encontrar o centro de informações turísticas e requisitar meu mapa grátis. Era muito mais divertido tentar seguir as placas duvidosas e as pessoas apressadas, confiando na sorte e conhecendo cantos escusos que um guia de papel não se importaria em ignorar.

Porque Veneza é isso: atração por si só, lugar pra andar a esmo sem outras preocupações a não ser achar sorveterias e desviar dos pombos. Muita água, mas também muita terra firme, o que era uma questão que me perseguia: será que todas as ruelas de Veneza são aquáticas, e a locomoção em duas pernas é só por pontes e meios-fios? Não: os canais são abundantes e vão dos filetes de água à imponência do Gran Canale, mas há diversas praças além da San Marco, e muito chão de verdade para os hidrofóbicos. Transporte, só mesmo os vaporetti - barquinhos motorizados que ligam as várias regiões da cidade - ou as gôndolas, se você for casal ou japonês.

Vagando pela Piazza San Marco, reencontrei duas brasileiras que conhecera no famigerado Alessandro Palace de Roma. Uma de Recife e outra de Belo Horizonte, ambas viajando juntas há semanas. No trem para Veneza, passaram sufoco: alguém afanou a bolsa da belo-horizontina; investigaram todos os vagões e tiveram a sorte de encontrar o passaporte, intacto, dentro de um vaso sanitário. Longe da amiga, a recifense me confidenciou que já estava de saco cheio de viajar com ela. O ritmo das duas não batia, cada uma tinha horários e objetivos e gostos e vontades diferentes, e eu pensando: tem hora que viajar sozinho é bom demais. Lembrava do grupo enorme de Brasília que conheci em Amsterdam, duas mulheres e três homens, e reparando nos problemas causados por falta de afinidades e excesso de convivência. Às vezes é melhor andar sozinho e não ter ninguém te aporrinhando quando você resolve entrar numa loja de instrumentos e comprar um kazoo barato de plástico, ou escrever postais na beira do mar tomando gelato de stracciatella (sempre ele). Se for em Veneza, então, melhor ainda.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sono pazzi questi romani



Roma, Itália

12 a 15 de fevereiro de 2007


Olha, o mundo todo devia ser como a União Européia: cheio de diferenças culturais, idiomáticas e gastronômicas entre os países, sim, mas com uma só moeda e essa facilidade incrível de transitar sem chateações alfandegárias e burocráticas encheções de saco. Quando desci em Roma, até perdoei o avião claustrofóbico da Ryanair e o meu ouvido que ficou entupido por dois dias: sair de um aeroporto internacional sem que sequer peçam seu passaporte vale tudo isso.

Me falaram que Roma era feia, que era violenta, mas caminhei bastante pela região da Stazione Termini - que realmente não é das mais vistosas -, inclusive de madrugada, e não tive problema algum. Já a história de que o trânsito romano é o mais próximo que já chegamos do apocalipse não é intriga. Por via das dúvidas, eu só atravessava a rua quando outros transeuntes se aventuravam também.

De resto, passear por Roma é uma beleza, e é melhor que você o faça a pé. O metrô é muito cheio e você acaba perdendo detalhes da paisagem, como um pé gigante de mármore dando sopa numa ruela qualquer ou ruínas que estão ali de bobeira há dois mil anos. Faça o roteiro completo: tome um gelato de stracciatella na escadaria da Piazza Spagna, jogue uma moeda na Fontana di Trevi (mesmo que depois um ladrãozinho maroto meta a mão lá dentro pra pegá-la), prove um gole do pior refrigerante do mundo. Percorra o Circus Maximus, mesmo que nenhum vestígio do circo tenha restado no que hoje parece o gramado do Parque Ecológico da Pampulha. Enfrente a fila do Coliseu e ande pelo Palatino imaginando quanta coisa já se passou naquelas ruínas - só não precisa tirar foto com os legionários fake loucos por uns trocados.

O grande problema de Roma - na visão de quem ficou por lá menos de uma semana, não custa repetir - são mesmo os romanos. Obelix tinha razão: esses romanos são loucos, e o que é pior, mal-educados pra cacete. O albergue onde fiquei, Alessandro Palace Hostel, tinha funcionários que faziam a americana ranzinza do Peace & Love de Paris parecer recepcionista de hotel 5 estrelas. Quando viram que eu era brasileiro, então, danaram a desfilar o repertório de palavrões que eles conheciam na língua de Dercy Gonçalves. Ainda bem que meu repertório é maior e eles não entenderam metade do que eu retruquei.

Mas a fauna de hóspedes do hostel era interessante. Tinha uma californiana com cara de asiática que estava lá há duas semanas, só acordando tarde e saindo com os amigos à noite, "just hanging out" (palavras dela). Tinha dois escoceses que viajavam com dois violões, provavelmente gastando mais com taxas extra do que com as próprias passagens. Fizemos um som no quarto - toquei "Hello" do Oasis e "Karma Police" do Radiohead, as primeiras canções britânicas mais ou menos recentes que me vieram à cabeça. Quando alguém perguntou, em tom de galhofa, se eles vestiam kilt, um deles não hesitou em tirar seu saiote xadrez da mala e exibi-lo com orgulho.

Depois os corteses funcionários do albergue me trocaram de quarto sem motivo aparente, e fui parar em outro com uma chinesa que mora em Tóquio e viajava sozinha pela Itália. Seu nome era quase impronunciável, mas ela se apresentava como "Ding Ding". Era engraçada: pegou meu guia de viagem e ficou horrorizada com a falta de fotos; disse que se um guia não tiver muita, muita foto, japonês não compra. E me mostrou o guia dela, que parecia álbum de figurinhas de tão ilustrado. Ding Ding também comprou um livro em italiano pra tentar aprender a língua. Detalhe: não era um dicionário ou um guia de frases, mas um livro normal, de ficção. Aposto que até hoje ela não sabe o que é porca miseria.

Nesse mesmo quarto, sofri com um dos maiores problemas alberguísticos: o famoso cara que ronca. Em vários dos lugares onde fiquei, sempre tinha alguém que roncava em maior ou menor intensidade, e eu mesmo devo ter dado minhas ressonadas quando bebia um pouco mais. Mas esse cara, um sujeito mais velho que chegou quando eu já estava quase dormindo, embrenhou-se numa barulheira nasal que não cessava nem por determinação de bula papal: cutuquei, soquei o estrado de sua cama por baixo, acendi a luz na cara dele, e ele só parou quando eu já estava sonhando que estava numa convenção da Harley-Davidson.

Quando voltei a Roma três dias depois, fiz questão de não voltar ao Alessandro's.



Cidade do Vaticano, Vaticano
14 de fevereiro de 2007

Como nação, o Vaticano é tão fuleiro que nem fiz um post separado só pra ele. Teoricamente, você pode ficar pisando dentro e fora da Piazza San Pietro e contar depois que fez quatrocentas e cinqüenta viagens internacionais em cinco minutos. Mas é quase a mesma coisa de você entrar num supermercado, derramar uma porção de latas de Pomarola e fundar uma ilha cercada de massa de tomate por todos os lados: alguém pode até entrar na sua e saudá-lo como o Novo Imperador da Licopérsia, mas país, país mesmo, não vai ser nunca.

Como atração, no entanto, o Vaticano é imperdível, mesmo que você - como eu - não seja católico apostólico romano e nem queira tomar bênção de Benedictus XVI. O Vaticano já vale a pena pelo seu incomensurável valor histórico e cultural. Começa com o Museu do Vaticano, cuja entrada não é pela Praça de São Pedro, mas por Roma mesmo. Dá pra passar uma semana inteira ali dentro, admirando as zilhares de estátuas, as salas decoradas por Rafael Sanzio, as obras de arte religiosa moderna que incluem até Dalí. A visitação culmina com a Capela Sistina, invariavelmente abarrotada de turistas. Enquanto eu tava ali com o pescoço doendo de tanto olhar pros afrescos do teto, um funcionário teve que pedir silêncio duas vezes, tamanha a balbúrdia.

Quem conhece a expressão "é como ir a Roma e não ver o Papa" deve imaginar que o Pontífice fica lá o dia inteiro, sentado num sofá e tirando foto com os fiéis. Mas se você realmente for se sentir uma pessoa mais iluminada se topar com Lord Ratzinger, procure saber antes que dia ele vai aparecer, porque ele só celebra missas ali em dias específicos.

Entrei na Basílica de São Pedro no meio de uma missa, mas com velhinhos mais simpáticos no comando. Me infiltrei na multidão pra chegar mais perto do altar, cumprimentei os que estavam mais perto desejando "pace di Cristo", e depois fiquei sentado esperando a massa ir embora para visitar a Basílica com calma. Quando finalmente a turba se dissipou e eu podia respirar tranqüilo, avistei ao longe a Pietà de Michaelangelo e me aproximei, mas fui interrompido por um funcionário:

- Todo mundo tem que sair.
- Não, peraí rapidinho, só vou ali ver a Pietà!
- Não não, todo mundo tem que sair - e me pôs pra fora.

Esses romanos são uns intransigentes.



A Praça de São Pedro, durante a missa.



A mesma praça, depois da missa.



Um pé gigante no meio da rua.




Uma bunda gigante no meio da praça.



Tá vendo o Circus Maximus? Não? Então é melhor pegar um DeLorean pra 50 antes de Cristo.



Guarda l'uccello!



Ave, Caesar, morituri te salutant.



O legítimo Pombo Times New Roman.